sexta-feira, 23 de dezembro de 2011


      Vinicius de Moraes escreveu: é melhor viver do que ser feliz. A afirmativa do poeta pode estar ligada ao fato de que ele alimentou um desejo insaciável pela paixão, o que lhe abriu aos pés um precipício. O poeta namorou muito, casou-se nove vezes e é dele a célebre frase: “que me perdoem as feias, mas beleza é fundamental”.
      Não podia ser diferente: Moraes teve como companheiras inseparáveis a solidão, a monotonia, a tristeza. É bem certo que cada qual tem seu jeito peculiar de avançar pela vida, de abrir portas e caminhos, de celebrar as alegrias da experiência humana, incluindo os prazeres do corpo.
      A questão que se levanta é a de que no mundo pós-moderno nossa subjetividade cada vez mais parece definir-se pelo corpo e suas exigências e cada vez menos por valores, sonhos, ideais ou por outras tantas razões que inventamos para dar significação à existência.
      E continuamos tomados pela angústia, traduzida em diferentes sintomas psicossomáticos, quando nos permitimos constatar a verdade irrecusável, atualmente transformada em espetáculo cotidiano: nada mais somos que corpos decepados, torturados, atropelados, violentados.
      Visão dantesca que nos recorda a linguagem sarcástica do poeta grego, Alexis: “Bebamos, bebamos à vontade, e tratemos de gozar a vida, enquanto é possível. Viva a alegria! (…) Virtudes, embaixadas, comandos, tudo é vanglória, ruído, inútil no país dos sonhos! A morte fará de ti um bloco gélido, no dia marcado pelos deuses. E que restará de ti? Poeira, apenas, como tudo mais é poeira…”.Mas voltemos ao poeta Vinicius: para se haver com sua solidão, o poeta adotou o estilo de vida à la beija-flor, esvoaçando de flor em flor, escamoteando a comédia da vida, plena de juras falsas, de ilusões, de engodos, rendendo culto a Dom Juan, cujo objeto de desejo não era em verdade a mulher, mas tão somente a vitória da sedução, da conquista.
      E contam-se também às centenas os solitários que não querem abrir mão da sua solidão. Chegam mesmo a se apaixonar, são correspondidos, mas não há entrega, não ha engajamento na relação, preferindo continuar sozinhos, complacentes com a dor que a ausência do outro provoca. Amplos são os limites do desconhecido, do mistério do mundo.
      Entretanto, diante do irremediável da vida, numa sociedade em que a cultura se escoa pelo ralo, e a natureza corre o risco de seguir a mesma trilha, a saída pode ser a tentativa de extrair prazeres novos e sutis da dor, da catástrofe, da fatalidade nossa de cada dia, pois até mesmo a política (que podia ser uma via alternativa) transformou-se num jogo vazio, no qual o poder corrói e a corrupção avulta entre poderosos e comandados.
E como nenhum de nós pode escapar ileso, aos traumas e labirintos existenciais, numerosos homens e mulheres buscaram refúgio na literatura. Condenaram-se voluntariamente a escrever. Como uma forma balsâmica de enfrentar a realidade, buscaram consolo no risível da nossa insignificância e nas recorrentes tentativas de extrair prazer e literatura da dor, da miséria de nossa triste condição humana, fazendo coro com o filósofo Kierkegaard, que afirmava: o amor pela vida deita raízes na dor e na tristeza, afetos que marcam o encontro conosco mesmos.
      E o mesmo filósofo acrescenta: deste nada que é o solo da existência é possível brotar o amor, o abismo do amor, algo bastante diferente da banalidade. E conclui: Infelizes os que nunca amaram. Nunca ter amado é uma forma terrível de ignorância.
Shyrley Pimenta – Psicóloga clínica

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