sábado, 16 de abril de 2011

Literatura

Existem muitos conceitos para literatura. Isso deve-se à abrangência e riqueza dos aspectos que estão relacionados a este termo. Sendo assim, não se pode dizer que literatura é isso ou é aquilo. Há uma diversidade bem grande de percepções quando a esta arte. Alguns a veem como um fim em si mesma, a arte pela arte como apregoavam os parnasianos, outros identificam na literatura uma forma de expressão onde afloram os sentimentos humanos frente aos dramas sociais, ainda outros enxergam nela dados históricos importantíssimos, há também aqueles que consideram todos estes vieses ao mesmo tempo fazendo da literatura um misto de ludicidade, análise ontológica e documento social.
Não pretendo aqui ater-me ao puro e simples “significado da palavra” literatura, um vocábulo oriundo do latim, LITERE, sinaisrepresentativos dos sons. Interessante isso, os sons possuem representatividade gráfica, isto é, eles podem ser “escutados” em uma folha de papel, ganham forma lá. Forma e vida. Quero, isso sim, referir-me ao fazer literário como a habilidade de se criar novos mundos, possíveis e impossíveis; como uma porta de entrada para o fantástico universo do imaginário humano.
Nesses mundos, nessa recriação do real, manda quem os concebe, quem os organiza, quem os pensa, quem os faz acontecer. Eis aí uma das grandes vantagens desta arte, não há circunstâncias irrealizáveis, pois a fronteira entre aquilo que “é” e aquilo que poderia “ser” constitui-se numa quase imperceptível linha divisória.
A linguagem literária tem seus próprios códigos, seus próprios arranjos, suas próprias regras. O padrão do imaginário é não ter padrão. O acontecer literário reclama por liberdade, não aceita a imposição de normas quem possam cerceá-lo, inibi-lo.
Sim, é preciso muita liberdade. As palavras necessitam mover-se soltas rumo ao destino que se queira dar a elas, afinal o que seriam das ideias se não fossem as palavras? Morreriam em seu nascedouro, não teriam utilidade nem significado.
O trabalho é árduo, ninguém duvida. É uma teimosia, uma insistência, uma busca angustiante pelas palavras certas. Se uma não serve substitui-se por outra e assim vai-se substituindo até encontrar-se a combinação desejada.
Além disso a literatura tem a força de transportar-nos. Quão maravilhosas são as viagens que fazemos quando nos expomos à narrativa, quando interagimos com ela, quando emprestamos-lhe nossas emoções misturando-nos à trama, participando, deliciando-nos com as imagens que vão sendo geradas dentro de nós à medida que avançamos na leitura.
Não se pode,desta maneira, exigirmos lógica nos desfechos, coerência nas conclusões, felicidade dos personagens. A literatura não está comprometida com a nossa vontade, não compactua conosco, não está à mercê de nosso raciocínio ou razão. Embora muitas vezes ela se utilize de nosso mundo como matéria-prima, não pode ficar sujeita às amarras de nossas lógicas. Ela tem sua própria forma de acontecer. Lida com o imprevisível.
Tendo vida própria, sendo autônoma, então tudo pode acontecer.  Se não fosse assim, a literaturanão poderia cumprir um de seus objetivos: simbolizar. Os símbolos têm a capacidade de refazer as coisas, de recriá-las, de dar outras formas e destinos para os acontecimentos. É a força da arte. Só ela consegue. Embora a literatura tenha o real como ponto de partida, ela não está ancorada nele. A experiência interna aliada à cosmovisão do indivíduo é que fornecem as ferramentas para atingir-se o imaginário.
 Se as palavrasencontrarem limite no fazer literário,  deixam de realizar sua função e assim acabam tirando tanto o brilho como a razão de ser desta misteriosa manifestação de nossa  humanidade.

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