terça-feira, 4 de outubro de 2011

     «Claraboia», o romance que José Saramago acabou de escrever em 1953, aos 31 anos, e deixou inédito até ao fim da vida, chega às livrarias portuguesas a 17 de Outubro, numa edição da Caminho, e é «um romance interessantíssimo», disse o editor, citado pela Lusa.
     Zeferino Coelho, editor e amigo de Saramago, falou um pouco da história e das personagens desta obra de juventude do prémio Nobel da Literatura português numa entrevista que deu à Lusa em Junho, pelo primeiro aniversário da morte do escritor, classificando «Claraboia» como «um bom romance», onde se encontram já esboços do que viriam a ser as suas obras seguintes.
     «Tenho comigo o original e está completo. Ou seja, é possível publicar o livro sem qualquer interferência, não lhe falta nada, não lhe falta nenhum bocado. Trata-se de um romance e é um romance interessantíssimo. Eu já o li ¿ mais do que uma vez ¿ e lê-se muitíssimo bem. Tem um grande número de personagens, mas aquilo tudo [está] muito bem articulado, muito bem contado», disse à Lusa.
     Quanto ao tema, o editor foi descritivo: «Toda a gente sabe o que é uma clarabóia, não é? Existe em muitos prédios que têm uma escada interior de acesso aos andares, está no cimo da escada, no telhado, para iluminar essa escada. O José Saramago imagina um prédio que tem rés-do-chão e dois andares ou três, cada andar está ocupado por uma família, as famílias são todas completamente diferentes e ele conta-nos a história de cada uma delas».  
     O romance «é muito rico, é muito diverso, e nota-se que já tem ali algumas coisas que o José Saramago viria a desenvolver mais tarde», sublinhou.
     «Tem até um personagem que, de alguma maneira, é o Saramago debatendo-se com os seus próprios problemas e, nomeadamente, com um problema que ele nunca resolveu, que é o do optimismo e do pessimismo: se a humanidade é recuperável ou não e que atitude deve cada um de nós tomar, sentirmo-nos responsáveis por aquilo que se passa à nossa volta e intervir, ou acharmos que não temos nada a ver com isso e afastarmo-nos de qualquer intervenção na sociedade», resumiu.
     «Ele tinha uma necessidade de fazer coisas, de ser activo, tinha a obsessão de evitar ser uma espécie de Ricardo Reis [heterónimo de Fernando Pessoa sobre o qual publicou um romance em 1984, «O Ano da Morte de Ricardo Reis»] que, aliás, já está aqui no Claraboia», observou.
      Trata-se de um romance que o escritor optou por deixar inédito e que agora será conhecido. Zeferino Coelho explicou porquê, contando a história: «Ele escreveu-o no princípio dos anos 1950, o livro foi entregue à editora nessa altura e, depois, a editora não disse nada e, aparentemente, o próprio Saramago se esqueceu do livro ¿ nunca mais ouviu falar dele e esqueceu-se. Até que, nos anos 1980, recebeu uma carta do editor, dizendo que tinha lá o livro, que o publicaria se ele quisesse e ele não quis. Foi lá buscar o livro e devolveram-lho. E é essa cópia que eu tenho agora, uma fotocópia dessa cópia».
      Na altura ¿ acrescentou -, «ele disse que não, não tencionava publicar o livro, em vida não queria publicá-lo, mas depois acrescentou que se quisessem publicá-lo depois da morte, sobre isso não se pronunciava, que as pessoas que têm de tratar disso fizessem como entendessem».
     «E à Pilar pareceu que sim, que era publicável, e a mim também me pareceu que o livro é perfeitamente publicável¿ e faz falta, para que nós saibamos o que é que o Saramago andava a fazer nos anos 1940 e 1950», frisou.



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